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"O Beijo da Mulher Aranha"

 

                                                                                                     Photo by Pedro Macedo


Um murro no estômago! Um murro de humanidade!

Que bom quando a arte nos acorda e nos deixa alerta para tantas das vivências e monotonias diárias que nos deixam mornos e a deambular por aí sem sentido.

Que grande lição para sabermos olhar com olhos de ver e, entender o “ombro do outro”. Empatia Precisa-se!

 

Até 05 de Junho estará em cena na Sala Estúdio do Teatro da Trindade Inatel “O Beijo da Mulher Aranha” de Manuel Puig, com encenação de Hélder Gamboa e interpretação de João Jesus e Diogo Mesquita.

De Quarta a Domingo às 19.00h / M18

 

“Numa prisão, sob um regime ditatorial, uma cela com dois prisioneiros. Molina, um homossexual  com um lado feminino intenso, é colocado pelo diretor da cadeia numa cela com Valentín, um guerrilheiro e preso político, esperando, desta forma, obter informações sobre as atividades revolucionárias.

Apesar das suas diferenças, o universo de fantasia de um e o sofrimento físico do outro acabam por aproximá-los e, contra todas as expectativas, ​ desenvolvem uma cúmplice amizade, que nos dará uma profunda dimensão do que é o Ser Humano.

A famosa obra de Puig teve várias adaptações, um pouco por todo o mundo, incluindo um musical na Broadway. A adaptação ao cinema, em 1985, valeu a William Hurt várias distinções, incluindo o Óscar de Melhor Ator.”

    Photos by Filipe Ferreira


 



Nunca nada é linear, especialmente nas relações humanas. Não vale a pena programar ou manipular o instinto e a essência do universo interior de cada ser humano. É isso mesmo que esta peça nos mostra e nos convida a viajar por mundos alheios ao nosso quotidiano mas que ambiguamente, em sentimentos, se assemelham a tantos de nós. Existem sempre valores, crenças e acontecimentos que nos deixam à prova e nos obrigam a mostrar o verdadeiro carácter sem filtros, ainda que até a nós mesmos essas atitudes consigam surpreender.

Entre a descrição pormenorizada de um filme feita por Molina e a curiosidade crescente de Valentín, desenrolam-se em catadupa um sem número de atitudes por parte das duas personagens que nos dão a conhecer a vida e os valores de cada um deles, embora sejam como polos totalmente opostos. No entanto, numa fase de maior fragilidade e em que o corpo consegue humilhar a mente, o cuidado e carinho mútuos acabam por emergir como escudo de protecção de ambos, até ao fim e, independentemente de tudo o que possa acontecer.

    Photo by Filipe Ferreira


“- Mudar o mundo… não podes mudar o mundo!”

“- Sim, sim, posso!”

“- Lantejoulas são bocadinhos de vidro que não valem nada!”

“- Eu choro quando me apetece!”

“- Uma mulher está sempre fodida…”

“- Que vergonha… é preciso ser Homem…”

“- Confias em mim, não confias?!”

“- Não devemos agarrar-nos demasiado a ninguém.”

“- Uma pessoa pode apegar-se a um amigo!”

“- Tenho medo porque estou doente.”

“- Quando os companheiros vão embora eles sentem-se desamparados…”

“- A minha mãe… ela gosta de mim assim!”

“- O sexo é inocência pura!”

“- Será justo eu ficar sempre sem nada…?!”

“- Nós as mulheres com defeito acabamos sempre mal.”

“ - Não vivo o presente porque vivo em função da luta política.”

“- Pra se ser mulher não é preciso ser mártir!”

“- Um sonho curto mas feliz.”

                                                                                                     Photo by Alda Silvestre


Numa postura sempre exímia, Molina é a representação de fragilidade, determinação, força, cuidado e carinho em formato de uma “mão-aranha” que alcança e percorre o corpo de Valentín, abraçando-lhe o coração e a mente até ao depois da sua existência.

 

Parabéns João Jesus!

Parabéns Diogo Mesquita!

Parabéns Hélder Gamboa!

Bravo a toda a Equipa!!!

Gratidão Manuel Puig… onde quer que esteja…!

    Photo by Filipe Ferreira



Ficha Técnica e Artística

De Manuel Puig

Encenação Hélder Gamboa

Com João Jesus e Diogo Mesquita

Participação André Ramos

Desenho de Luz Paulo Graça

Cenografia e Figurinos Rui Filipe Lopes

Música Luís Pinto Lucena

Participação Vídeo José Raposo

Assistente de Encenação Ângela Pinto

Versão Portuguesa/Dramaturgia Ângela Pinto e Hélder Gamboa

Assistente de Produção Mafalda Gonçalves

Estagiário Assistente de Encenação Pedro Barbosa

Produção Executiva Miguel Manaças

Coprodução Teatro da Trindade Inatel, Tenda Produções

                                                                                                    Photo by Filipe Ferreira

 

                                                                                                     Photo by Alda Silvestre


Agradecimentos pessoais:

O meu sincero obrigado a toda a equipa do Teatro da Trindade Inatel pela forma calorosa como me receberam, ao Diogo Infante pela simpatia e, ao Hélder Gamboa e ao João Jesus pelo tempo e atenção dispensadas para responderem às minhas curiosidades.

 

Entrevista ao Hélder Gamboa:

 

- Porquê a escolha d' "O Beijo da Mulher Aranha"? 

Este texto veio parar às minhas mãos, através de um convite feito pelo diretor do Teatro da Trindade (Diogo Infante) à Tenda Produções para a apresentar neste teatro maravilhoso e estas temáticas de cariz social e interventivo sempre me interessaram. Este foi o segundo desafio feito pelo Diogo. Em 2019 apresentámos o espetáculo Boa Noite Mãe de Marsha Norman com as atrizes Ângela Pinto e Sylvie Dias e encenação minha.

 

- O que mais o desafiou na encenação?

Este texto é de 1976 e passados estes anos todos, o tema ainda está muito atual, percebi ainda antes de começar os ensaios que ainda hoje o tema é fraturante, mas não quis focar-me apenas nisso. Na encenação tenho dois homens presos com pouco espaço e quis dar ao público a sensação de que estava dentro da cela como um voyeur, para sentir na pele o que o Valentín e o Molina sentiam.

 

- Quanto tempo foi necessário para concluir o que pretendia?

As primeiras conversas com os atores, começaram há mais de seis meses. Mas pelo meio a Tenda estreou outro espetáculo (O Freud Explica) que ainda está em cena no Teatro Armando Cortez, o que me fez criar uma pausa em termos criativos, mas estive sempre em contacto com os atores e trabalhando por telefone. O processo de ensaios começou no dia 1 de março e trabalhámos de segunda a sábado das 15 às 23 horas.

 

- Pode contar-me um episódio divertido/caricato de algo "diferente" que tenha acontecido durante o processo?

Todos os dias durante os ensaios, houve muitas histórias contadas por todos, a equipa criativa e atores esteve sempre com boa disposição, e neste processo aconteceu muitas vezes que após terminarem os ensaios ficávamos pela noite dentro à conversa na porta do teatro ou terminávamos o dia com um bom repasto.

 

- Como se sente agora que terminou a tarefa principal e está na véspera da estreia?

Neste momento o espetáculo está na mão de dois bons atores. A mensagem que lhes passei, foi que todos os dias há um novo público que eles têm de conquistar. O resultado final deixa-me muito feliz e estou muito confiante com a temporada que vamos iniciar no Teatro da Trindade. Vamos tentar chegar a vários teatros deste país, já que achamos na Tenda que esta deve ser uma das nossas funções, levar cultura a todo o pais.

 

Entrevista ao João Jesus:

 

- Qual foi a tua primeira reacção quando o Hélder Gamboa te convidou para seres o Molina?

O primeiro contacto que tive foi por parte do Diogo Infante que me deu a conhecer o projecto  e me explicou tudo acerca da personagem. 

Li o texto e fiquei maravilhado.

Logo de seguida falei com a Ângela Pinto e com o Hélder Gamboa e falámos durante vários dias até nos encontrarmos.

 

- Foi difícil vestir a pele da personagem?

Foi muito difícil mas sem dificuldade nada vale a pena. 

É um trabalho de composição que tem de ser sustentado com uma grande verdade. 

Construir a Molina exigiu muita entrega e principalmente não ter receio da exposição que temos em palco. 

O texto está muito bem construído e oferece-nos uma data de caminhos e a grande dificuldade foi escolhê-los com a máxima coerência.  

 

- Sentimentos e/ou ensinamentos que tenhas descoberto com esta interpretação?

Não é por ser homem que não posso andar com as unhas pintadas ou com uma saia. 

Temos de parar de pensar só em nós, no nosso mundo, nas coisas que conhecemos e que nos são confortáveis. A curiosidade sem malícia é bem vinda. Querermos conhecer melhor o outro é uma dádiva. 

Eu não faço mal a ninguém por andar com as unhas pintas, contudo , sinto que não sou bem vindo. 

De vez em quando é necessário vestirmos a pele para percebermos o que anda à nossa volta, e é assustador. 

 

- Como foi contracenar com o Diogo Mesquita? E dirigido pelo Hélder Gamboa?

O Diogo Mesquita é uma excelente pessoa. Muito cuidadoso, amoroso e um excelente profissional. 

Acho que temos um grande trabalho em mãos e isso deve-se ao grande ambiente que vivemos durante os ensaios, fomos e somos uma equipa maravilhosa.

Está a ser um privilégio conhecer o Hélder Gamboa, que confiou em nós desde o primeiro minuto e nunca nos largou. 

Resta-me parabenizar os dois pelo excelente trabalho que fazem.  

 

 

- Deduzo que estejas com mais do que um trabalho em curso. Podes descrever-me um dos teus dias desde manhã até à hora de fim do ensaio e que te tenha acontecido uma cena divertida/disparatada ou caricata que queiras partilhar?

(A razão desta pergunta prende-se com o facto de desmistificar um pouco a vossa vida de actores e mostrar o quão difícil e o quanto têm de "roubar" a vocês mesmos para nos oferecerem este grau de qualidade na arte)

 

 Eu tinha prometido a mim mesmo que não ia conciliar com nenhum outro projecto mas felizmente não foi possível. 

Durante os ensaios estive a fazer uma série para a OPTO  e agora em maio vou entrar num filme para a RTP.

Tive dias durante os ensaios em que entrava no teatro às 15h00 saía às 19h00, ia para as gravações da série até 4h00 ou entrava  na série de manhã e saía do teatro às 23h00. Horários rotativos. Faz parte e só tenho de estar contente por isso, por poder estar a fazer o que amo. 

Tive algumas situações caricatas e um tanto assustadoras. A primeira abordagem que tive foi , “Então o que é que tens nas unhas?” Pintei , estão pretas (fiz de propósito e não referi que era para o espectáculo). “Mas estás com alguma doença? “ Não, não; pintei, apeteceu-me. 

“Ah! É para as gravações, alguma novela?” 

Não, apeteceu-me pintar. 

“Ah”.

Depois outra em que disseram “atenção que ele está com as unhas pintadas mas tem namorada! E é para o espectáculo de teatro”.

“Ah estava a ver, era um desperdício”. 

“Não não, ele tem namorada”. 

“Ah, estava a ver”.

 

***

 

Pegando nesta última frase “Ah, estava a ver…” e associando à mensagem emocional que a peça passa, gostaria que pensassem antes – “Ah, estou a ver… mas ainda ando aqui a aprender quase tudo de novo… um pouco todos os dias.”



Teatro da Trindade Inatel

Tenda Produções

João Jesus

Diogo Mesquita

André Ramos

Hélder Gamboa

Ângela Pinto

José Raposo

Diogo Infante


*Leitura programada para ecrã inteiro*

"As Fúrias Ou De Como O Pai Venceu A Mãe"


                                                                   Photo by Margarida Dias


Quantas fúrias valem os seus direitos? Quantos direitos valem os seus actos? Direitos? Sim, direitos! Humanos ou Mitológicos, há que tentar manter e preservar num qualquer espaço real ou ficcionado, os maiores valores inerentes à honra da condição e cultura sociais do meio onde “o outro” está inserido e em que acredita. É importante ponderar as causas, motivos, consequências e julgar bem! Julgar? Julgar nunca será certo ou terá benefício inteiramente justo.

Em As Fúrias ou de Como o Pai Venceu a Mãe, deparamo-nos com a criação metafórica de um Tribunal instituido em Atenas, onde se debate ao limite a luta entre o direito maternal e paternal. Mediante a existência de dois crimes – o assassínio do Pai de Orestes e o matricídio – são postas em causa todas as razões que naturalmente levariam as deusas da noite - Eríneas ou Fúrias - a condenar o matricida.
Numa sociedade onde a Mulher era totalmente desvalorizada e vista como sendo apenas uma “incubadora de novos seres”, Apolo alega a favor de Orestes de forma a conseguir a sua absolvição. Neste Tribunal Atena cria lei ao invés de justiça em prol do benefício da ordem pública, desvalorizando a força da razão que todos possuem no íntimo das suas vivências. 

No início da Peça temos a Introdução feita pela encenadora Fernanda Lapa. O público faz parte deste Tribunal, sendo também convidado a decidir o destino de Orestes, com base em todos os factos e emoções expostas, colocando o seu voto nas urnas e assistindo de seguida ao consequente desfecho do drama. No final, todos são convidados a beber uma taça de vinho e brindar em honra de Diónisos, o Deus do Teatro.
E sim, brindemos ao Deus do Teatro!
Brindemos também à Escola de Mulheres – Oficina de Teatro, onde há mais de duas décadas existe um núcleo no feminino responsável pelo desenvolvimento da Arte e onde há uma especial “incubadora de novos seres”, pessoal e artísticamente valorizados.

                                                                     Photo by Margarida Dias



Ficha Técnica e Artística
Texto: a partir de “As Euménides” de Ésquilo
Dramaturgia, Encenação e Figurinos: Fernanda Lapa
Interpretação: Sara Túbio Costa (Pitonisa, Clitemnestra e Atena) / Marta Lapa, Maria Ana Filipe e Joana Castro (Fúrias) / Francisco Côrte-Real (Apolo) / Rodrigo Tomás (Orestes)
Assistência de Encenação e Apoio ao Movimento: Nicolau Antunes
Adereços e Máscaras: Carlos Matos
Desenho de Luz: Paulo Santos
Fotografia: Margarida Dias
Apoio a Adereços: Marinel Matos
Grafismo: Manuela Jorge
Direcção de Produção: Ruy Malheiro
61ª Produção Escola de Mulheres
Classificação Etária M/16

As Fúrias Ou De Como O Pai Venceu A Mãe, estará em cena até dia 29 de Janeiro, de 5ª a Domingo às 21.30h no Espaço Escola de Mulheres (Clube Estefânia).  
Bilhetes à venda na BOL e na Bilheteira Local nos dias do Espectáculo.
Mais informações em www.escolademulheres.com


Nota pessoal:

. Tive a oportunidade de experienciar um dos métodos de Apoio ao Movimento, leccionado pelo Nicolau Antunes a uma turma onde também participaram os actores e alguns elementos da produção de As Fúrias. Devo salientar que a experiência foi extremamente enriquecedora a nível pessoal para o meu auto-conhecimento físico e emocional. No entanto, para além disso, foi muito interessante uma “outsider” perceber um pouco da dinâmica de trabalho exigida e percorrida por todos, até à hora em que tive o privilégio de me sentar confortávelmente a ver o trabalho final, sendo também eu, um dos elementos do público daquele “Tribunal”.
. Foi surpreendente para mim mesma como é que utilizando a razão e o coração como muletas e, baseada numa frase dita com toda a convicção há muito tempo pela criança mais importante da minha vida, onde me descreveu de forma incisiva um sentimento humanamente correcto e que eu podia relacionar naquele instante com a situação dramática daqueles deuses, poder constatar que apesar de eu estar a raciocinar no sentido da justiça também me enganei no julgamento. Confesso que me assustei um pouco com o facto de ter ficado a certeza de que simplesmente julgar, também pode condenar inocentes.
. A última lição que trouxe da experiência é que ser actor, encenador, dramaturgo, cantor, dançarino, pintor, trapezista, malabarista, escritor… ou outra qualquer profissão ligada às artes… ou outras, não são apenas para quem quer, mas sim para quem tem a arte de se esforçar para lá dos seus limites até conseguir!



Alda Silvestre
11.01.2017





IVO CANELAS - On and Off


Numa primeira leitura e para quem não sabe ou ainda não conhece, pode parecer que estou apenas a identificar o nome de um interruptor inserido num painel eléctrico. Mas não! De todo! Estou a tentar falar de uma pessoa, de um actor, de uma vida – afinal, existimos todos numa alternância de “on and off” – são muitas as vezes em que na verdade, mais parecemos um painel de luzes dum quadro eléctrico em curto-circuito, para conseguirmos aceder a todas as solicitações existenciais.
É na verdade, uma tarefa muito difícil para mim falar do Ivo. Tão difícil que ando sensivelmente há ano e meio para o fazer. É muito tempo?! Nem por isso – por vezes o tempo pode ser apenas uma palavra sem medida. A verdade é que me fica sempre complicado falar da vida de alguém como o Ivo Canelas que tanto tem de versátil, carismática e internacional, como de aparentemente linear, simples e que consegue passar-nos a sensação de que tudo é tão fácil e natural de se fazer na representação. 
Além disso esta é a “minha entrevista”, conseguida por meu próprio mérito - em “slow motion” - e agora faço com ela o que eu quiser e quando eu quiser… sem ponteiros acusadores ou direccionados para o relógio dos meus limites (desde que o Ivo me autorize a deixar escrito este meu novo “desenho de palavras” da forma que nem eu mesma sei como vai sair).
Aqui vou eu então começar a viagem na montanha russa ou comboio fantasma:
Talvez por há muito tempo ser alguém tão próximo através de coincidências geográficas e de calendário, bem como ao mesmo tempo tão distante, que já rabisquei em várias folhas perdidas e gastas, dezenas de palavras sobre a sua pessoa e o seu trabalho, para começar esta entrevista de carácter informal feita a 29.04.2015. Sim! Foi a Vinte e Nove de Abril de Dois Mil e Quinze – fica assim escrito como se faz nas escrituras notariais - para que não fiquem dúvidas de que assumo publicamente ser a pior candidata a “entrevistadora”, especialmente quando são pessoas com um percurso artístico que tanto admiro e com quem me sinto mais confortável, seja por questões de amizade ou conhecimento de longa data. Estava de tal forma familiarizada com a sua pessoa que este “tinha de ser um daqueles meus eventos” que estão destinados a correr menos bem, digamos assim – os amigos que me estiverem a ler sabem bem do que falo e da minha tendência natural para o disparate.
Foi portanto, naquele famoso dia 29 de Abril que deixei o Ivo “só” meia hora à minha espera – acabou por ter de almoçar sozinho, à sombra das árvores e a ver peixinhos gigantes numa parede em frente (isto não se faz mesmo a ninguém!) – andei perdida na zona do Restelo, sem GPS, enganada por um polícia com uma indicação errada e, obrigada a fazer uma corrida de fitness (deve ter sido castigo do “pequeno/grande Velho do Restelo” que há em mim!). Quando finalmente cheguei ao destino prometido, tenho a certeza de que lhe ficou a convicção do desastre ambulante da entrevistadora a quem se tinha atrevido a conceder algum do seu pouco e precioso tempo. E pronto! Fora o disparate seguinte do “café sem chávena”, com risos inevitáveis pelo meio e eu, com a induzida “duvideza” (junção de dúvida com certeza) de que a conversa informal já não me estava a correr muito bem… lá acalmei ao mesmo tempo que inspirava e aspirava todo o ar ao meu redor para oxigenação cerebral e assim, poder começar condignamente a debitar curiosidades que há muito gostava de ter esclarecidas.


Para algumas gerações falar de Ivo Canelas, é relembrar o Joca da série televisiva OFura Vidas, onde contracenava com o grande Miguel Guilherme, o saudoso Canto e Castro entre tantos outros actores aos quais nunca poderemos comparar ou quantificar a qualidade do seu trabalho. Foi na verdade, com esta série que teve o primeiro impacto com o facto de se ver numa posição de “figura pública” e reconhecida. Desde essa altura até agora são inúmeros os projectos nacionais e internacionais em que tem participado nas várias vertentes da representação.
No entanto, para mim, é sempre uma curiosidade superior, saber como nasce e como surge o primeiro “click” de qualquer tipo de arte na vida de alguém. Quando pergunto o que se sente e como é ser ainda tão novo e ver-se a fazer parte de um projecto que não o deixou passar anónimo pelo pequeno ecrã, responde firmemente que, “é preciso ter uma base e uma estrutura interior muito fortes e de uma forma bem definida para aguentar o facto de ser constantemente invadido no seu eu”. Impressionou-me deveras a forma como ao falar naturalmente, deixou um recado tão simples mas tão importante e incisivo, às actuais e às vindouras gerações de actores e que não posso deixar de salientar e relembrar:
- “Tão depressa és tudo como és nada! Há que não perder o teu ‘eu’, nem se dissociar daquilo que és, que queres e que tens como objectivos para a tua vida”.
Se pensarmos bem, afinal, estes valores aplicam-se a todos nós, em qualquer profissão ou situação social. É talvez por ter este lema de vida tão bem estruturado e vivido que, apesar do seu enorme e já longo percurso, se tem conseguido manter numa ambiguidade profissional que tanto o mantém um ilustre anónimo discreto, como um actor conhecido e reconhecido com uma enorme versatilidade e carisma. Pode parecer estranho mas é verdade que não foram poucas as vezes que falei do Ivo e foram raras as pessoas que à primeira conseguiram associar o nome ao actor e/ou a uma personagem. Precisam de ir pesquisar primeiro e só depois exclamam um grande “Ahhhhh… já sei quem é!!!”


À data desta nossa conversa estava a saír um projecto com co-produção do Brasil, Italia e Portugal – Estrada 47 – filmado em Itália, dirigido por Vicente Ferraz e no qual personifica um dos milhares de soldados brasileiros que combateram na II Guerra Mundial ao lado das Forças Aliadas, em condições adversas e, onde soldados habituados ao calor se vêm confrontados com as diferenças climatéricas de um país totalmente diferente do seu. Ficam em causa as suas vidas e a forma como sobrevivem ao mesmo tempo que defendem uma “terra de ninguém”, sendo obrigados a ajudar a desminar um campo de minas, enfrentar o inimigo e o sofrimento sobre-humano que lhes é infligido. São inevitavelmente postos à prova como soldados e principalmente como seres humanos. Muito interessante a forma como nos “identificamos e reconhecemos” em situações limite…! Acima de tudo é mais uma realidade histórica da época que muita gente desconhece, bem como uma outra maneira de olhar e ver a forma de fazer cinema destes três países.
É difícil fazer referência a todos os trabalhos de televisão, cinema, teatro e outras vertentes culturais onde já participou mas posso referir alguns tais como Call Girl; Os Filhos do Rock; Florbela; Assim Assim; Shoot Me; A Arte de Roubar; Liberdade 21; Desavergonhadamente Real; O Mistério da Estrada de Sintra, entre muitos outros. Vale a pena fazer uma pesquisa pormenorizada ao IMDb e ir descobrindo sequencialmente o seu percurso desde 1994. Esteve muitas vezes nomeado para melhor actor e foi galardoado com o merecido prémio em alguns deles. 

                                                                                          

Ao perguntar que tipo de projecto mais o alicia, responde que gosta de fazer qualquer coisa desde que seja bom e que goste – sem complexos, menosprezos ou depreciação. Não importa se são séries, filmes, teatro, novelas, etc. Apenas faz mais filmes porque lhe têm aparecido mais projectos nessa área. De qualquer forma assegura de que não é fácil andar sempre a correr de um lado para o outro, saltar de país em país, não poder estabilizar nem assentar raízes. Talvez seja por este motivo que um dia disse numa entrevista a um magazine de um jornal, que já lhe tinha passado pela cabeça deixar de ser actor (algo deste género). Logo que me foi possível, enviei-lhe uma mensagem tipo telegrama a dizer, “acabei de ler o magazine -stop – vou matar-te se deixares de ser actor!!! – stop”. 

Ao ouvir o “outro lado” da sua história de vida, relembrei também de uma reportagem televisiva longínqua onde o Ivo disse uma frase/expressão que me marcou deveras na altura por motivos pessoais, que eu não conhecia mas que me gravou um sorriso no rosto e no coração de tão verdadeira que é, seja lá quais forem os deuses, anjos e santos protectores de cada um. Talvez por isso nunca mais a esqueci – “Deus ri-se dos nossos planos!” E deve rir-se bastante mesmo porque nessa altura ainda eu nem sequer imaginava que o “bonequinho falante do ecrã” da minha casa, seria agora o meu “entrevistado”.
Deve ser mesmo verdade que há um “Sininho” qualquer dentro de cada um de nós a obrigar-nos a tomar decisões importantes que nos fazem crer sermos donos e senhores da nossa própria vontade e, quando nos apercebemos, ao corrermos ao sabor das nossas opções e dos nossos sonhos, somos direccionados quase sempre para o sítio do “nunca imaginei” ou do “quem diria”. E é assim que vivemos constantemente - em “On and Off”. E foi assim também que o actor encontrou a sua forma de terminar o Conservatório Nacional num passado recente, pelo meio de tantos trabalhos, sendo dono de tantas decisões pessoais e profissionais.
Retomando a minha curiosidade pelo “princípio do início”, confessou que tudo começa no teatrinho da escola primária – sim, na 4ª. Classe. Será caso para dizer agora, como é que uma fase tão primária pode ser tão decisiva na vida de uma criança…?! Mas é mesmo! Portanto, cuidado com as nossas crianças – as verdadeiramente pequenas e aquelas que ainda estão escondidas num qualquer canto de nós…!
O seu primeiro contacto com o público foi nas apresentações dos espectáculos do Conservatório mas o verdadeiro trabalho e experiência a sério foi na antiga Feira Popular de Lisboa, na casa assombrada Passagem do Terror, onde se viu obrigado de um dia para o outro a actuar com o risco da acção/reacção uma vez que tinha de lidar com um público “exigente e mal comportado” no bom sentido – era público real, sincero, sem rodeios e, ou gostava ou não gostava e reagia mediante o que sentia – tal como as crianças. Tinha portanto, o desafio de os “agarrar” a todo o instante e isso foi uma enorme escola práctica.
Mais tarde foi estudar para uma Escola em Nova Iorque porque sentia que cá em Portugal estava um pouco limitado e decidiu alargar os seus próprios horizontes. Depois de ouvir um dos seus exemplos experienciados como formas de aprendizagem, eu própria devo ter ficado com um sorriso estranho congelado na face – recordo-me de, por momentos, deixar de o ouvir e ter pensado: “era exactamente aí que eu deveria ter estudado também…e teria usado todas as salas!”
Passo a explicar o que o Ivo partilhou – pode existir por exemplo uma única sala que está dividida em quatro – num lado estão alunos sentados normalmente em carteiras; noutro estão alunos sentados todos tortos e descontraídos - tipo lounge; numa outra divisão os alunos que trabalham melhor em grupo e numa outra ainda, aqueles que só conseguem desenvolver o processo criativo de forma isolada. Na verdade, todos sabemos que cada pessoa tem uma personalidade e comportamento muito diferente e pessoal, com uma vivência muito própria e isso deveria de ser sempre respeitado em qualquer lugar e em qualquer cultura sem danos de qualquer natureza para quem quer que fosse.
Sei que em algumas escolas se fazem experiências idênticas e talvez estejamos no bom caminho porque desde cedo já se dão algumas dessas liberdades às nossas crianças. Seria muito bom que todas elas se transformassem em “adultos bonitos”, bem educados, bem humorados e capazes de também eles saberem rir dos seus próprios planos que possam sair furados… ou não! Acima de tudo, sejam capazes de ser pessoas realizadas e se possível felizes, estejam eles em modo On ou em modo Off.


Voltando a ti Ivo, muito obrigado por seres o Actor que és e também por nos levares com tanto mérito, brilho e qualidade para lá da linha que delimita o nosso País.
(E agora conta lá, aqui para nós, que ninguém nos vê nem ouve… aproveitaste a oportunidade e passaste pelas divisões todas da dita sala da Escola de Nova Iorque, não passaste?! Diz lá a verdade!)


                           [e os peixinhos gigantes continuam a nadar na parede lá atrás... repararam?!]




23 de Dezembro é o dia do seu aniversário - raramente esqueço por também ser um dia importante para mim por outras circunstâncias especiais. Há anos em que lhe dou os Parabéns, noutros esqueço-me por completo porque o tempo me ganha quase todas as corridas.

De qualquer forma, em datas festivas importantes das vossas vidas, não se esqueçam de brindar com "Refrigerantes e Canções de Amor" (argumento de Nuno Markl,  realização de Luís Galvão Teles, interpretação de Ivo Canelas, Lúcia Moniz, Victória Guerra, Gregório Duvivier, João Tempera, Jorge Palma, Sérgio Godinho, Ruy de Carvalho, Marco Delgado e André Nunes). 


Bem que um pouco de essência de refrigerante e amor de bom tom podem realizar verdadeiras obras de Arte.






17.07.2016
Alda Silvestre

[Esta entrevista não foi escrita ao abrigo do novo Acordo Ortográfico por minha deliberada opção, porque não me apetecia descartar o actual inútil “c” da palavra “Actor” por dois motivos – o primeiro é porque acho mesmo a palavra muito mais bonita e “maior” com o “c”, o segundo motivo é apenas porque quando conheci o Ivo ele ainda era um “Actor” e não um “Ator”. Por conseguinte todo o restante texto teria de ser escrito também tal como eu aprendi na escola primária e na 4ª.Classe.]


(Obviamente recebi todas as autorizações "ministeriais"... e principalmente a do Ivo para publicar este post)

* * *

Alda's Translation arriving soon.  Loading for a while... a long while! :-)